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Treino Positivo VS Treino Tradicional- aquilo que vai explicar ao seu vizinho!

Treino Positivo VS Treino Tradicional- aquilo que vai explicar ao seu vizinho!

Este é um tema que, ao longo dos anos, tem sido motivo de debate. Debate esse que se prende, maioritariamente, com quem tem razão e quem não tem e o que está moralmente correto e o que está errado. 

Alexandra Santos

A Alexandra Santos é autora, formadora, consultora de comportamento canino e professora universitária. A sua especialidade é a resolução de problemas de comportamento pertencendo à classe de treinadores de cães que só utilizam métodos de treino positivo. Atualmente reside em Lisboa, Portugal.

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Existem lacunas em ambos métodos – o treino tradicional baseia-se bastante na manipulação física e recorre a uma mistura de recompensas e punições. Mais à frente, irei explicar o porquê de isto ser uma lacuna. O treino positivo foca-se, maioritariamente, na utilização de recompensas e gestão de situações problemáticas. Onde está a lacuna? No facto de a gestão nem sempre ser praticável.

Optei por uma abordagem objetiva a este tema, deixando-o a si, como leitor, chegar às suas conclusões. Mas primeiro, gostaria de deixar um apelo à sua consciência. Quando decidimos treinar o nosso cão, é importante refletirmos sobre dois pontos:

  • Na relação dono/treinador/cão, o cão é o membro mais vulnerável. Portanto, o seu bem-estar deve ser assegurado.
  • O cão não tem voto na matéria – é um alvo do que lhe fazemos, bom ou mau. É ele que sente o prazer de brincar e a dor de levar um esticão com a trela.

Passo a apresentar alguns factos do treino positivo e treino tradicional, com base em estudos científicos. Começo pelo treino positivo.

É importante entendermos que o treino positivo não é permissivo.

Quando isso acontece, a falha está no profissional e não na metodologia. Treino positivo está relacionado com treinar o cão para executar comportamentos desejados, recompensando-o quando os executa e nunca o punindo por “erros” cometidos. Pretende-se que o processo de aprendizagem seja prazeroso, precisamente para assegurar o bem-estar do cão. Pretende-se, também, evitar os riscos inerentes às punições físicas. Trata-se, portanto, de uma metodologia que utiliza maioritariamente o reforço positivo – ou seja, recompensas.

Porquê dar tanta importância ao reforço positivo? Porque os comportamentos que são reforçados tendem a repetir-se, de futuro, o que promove uma aprendizagem mais rápida; porque o cão é um aprendiz colaborante; porque a confiança no dono se mantem íntegra; porque o comportamento do treinador/dono é previsível durante o processo de treino, o que minimiza repostas de stress por parte do cão.       

Existem várias técnicas dentro do treino positivo, o que nos permite avaliar qual se adapta melhor a um cão, dono ou situação, e utilizá-la sem recorrer à manipulação física aversiva ou punições. Algumas dessas técnicas são: captura, moldagem livre, indução (com comida ou outro estímulo), targeting

Por uma questão de comunicação clara, o que também contribui para uma aprendizagem mais rápida, a pista verbal (“deita”, por exemplo) só é introduzida quando o cão já executa bem o comportamento. Até lá, são utilizadas pistas visuais (fazer um gesto com comida na mão, por exemplo) ou são dadas ao cão oportunidades de aprender por tentativas, o que estimula as suas capacidades mentais. 

Como as pistas ficam associadas a recompensas e nunca a uma mistura de recompensas e punições – chamadas pistas envenenadas, como poderá ler mais abaixo – a probabilidade de o cão hesitar na sua resposta diminui, e isto também promove uma aprendizagem mais rápida.

Mas agora, uma pergunta pertinente: “Então, como corrijo o meu cão por fazer o que não deve? Não o quero a roubar meias nem a roer os pés das cadeiras!” É aqui que entra o fator ‘gestão das situações’, que mencionei no início deste artigo. Ter gavetas fechadas e o cesto da roupa suja fora do alcance do cão… tê-lo atrelado a si, se não o puder supervisionar… Gerir situações requer tempo e atenção, o que nem sempre é viável. Ignorar os maus comportamentos nem sempre funciona, pois alguns deles são auto reforçados e outros causam-nos dor – aquelas dentadinhas de beliscão, por exemplo. Esta é a lacuna do treino positivo. Mas…e deixo o “mas” para o final deste artigo. 

De seguida, umas palavras sobre o treino tradicional.

Com esta metodologia, as pistas verbais são introduzidas logo no início do treino. Como os cães não entendem nenhuma das nossas línguas, a manipulação física é inevitável – dizer “senta” e pressionar os quartos traseiros, por exemplo. Não falando, sequer, de uma manipulação física aversiva, só o ato de manipular o cão é um obstáculo ao seu raciocínio.   

A utilização de uma mistura de recompensas e punições – característica do treino tradicional –  pode parecer-nos uma abordagem mais completa e rápida, mas não é. Isto deve-se a vários fatores, sendo um deles um fenómeno chamado pista envenenada. Pensemos numa pista (ou comando, como é mais utilizado no treino tradicional) como uma luz verde para o cão executar uma ação. Ele ouve e responde à pista “senta”, repetidamente, e é recompensado por isso. Mas, por qualquer motivo, há um momento em que não se senta e os quartos traseiros são-lhe pressionados para baixo até se sentar – uma punição. Desta forma, a pista “senta” fica associada a recompensas e a punições, daí o termo pista envenenada. Quando isto acontece, o cão começa a hesitar, o que torna o processo de aprendizagem mais lento.

A utilização de punições, mesmo quando aplicadas com um ‘timing’ perfeito pode trazer consequências desagradáveis (e até perigosas) tanto para o cão como para o humano: agressividade direcionada para quem pune ou para o ser que estiver mais perto; associações negativas ao local ou seres presentes no momento da punição; ansiedade generalizada (não conseguindo associar um comportamento específico à punição, o cão não o consegue prever nem fazer nada para o evitar); contra controlo (um fenómeno em que o animal tenta cessar a punição agredindo ou enganando o seu agressor); desamparo adquirido (o oposto do contra controlo e agressividade) – para evitar punições, o animal aprende a não tomar qualquer iniciativa, chegando a isolar-se e a fugir às interações sociais.

Podemos, portanto, concluir que as punições provocam desconforto, dor e medo.    

Quando punimos um cão – dar um esticão se puxar a trela, por exemplo – convencemo-nos que ele entendeu que levou o esticão por ter puxado. Mas ele pode ter associado o esticão à criança para quem estava a olhar na altura…ou para o cão que estava perto…Ou seja, o comportamento que queremos punir pode ser diferente do comportamento que o cão associa à punição. Esta é uma das causas de situações em que um cão começa a mostrar agressividade, “do nada” para com pessoas ou outros animais sem “motivo aparente”.   

Resumindo: embora existam lacunas em ambas metodologias, o treino positivo assegura o bem-estar do cão, estimula as suas capacidades mentais, torna a aprendizagem prazerosa, é rápido, fortalece laços emocionais com o dono/treinador, e não coloca a integridade física de ninguém em risco. O treino tradicional pode aparentar resolver o que o treino positivo aparenta não resolver, mas é arriscado.          

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